Um dia na vida de uma mulher

6h30 – toca o despertador. Calcula rapidamente a quantidade de coisas que tem pra fazer e aperta o botão soneca.

6h45 – só mais 5 minutinhos.

7h – melhor levantar logo, já estou atrasada.

E a parti daí: corre fazer um exercício banho será que dá tempo de lavar o cabelo ai meu deus minha tapioca queimou vou comer assim mesmo ai vou lavar a louça rapidinho passar no correio e correr pro trabalho atende telefone faz reunião troca ideia almoça pensando que esqueceu de tirar o lixo corre finalizar a apresentação da reunião lembra que precisa comprar manteiga e papel higiênico vixi não falo com a minha mãe há dois dias ela vai me matar hoje sai do trabalho pensando que hoje finaliza aquele curso online e vai para o supermercado chega em casa higieniza as compras troca a roupa e já bota pra bater o que tá sujo vai pra cozinha e vê que esqueceu de descongelar o frango e pensa se vai no microondas ou se passa a semana a base de ovo desiste e pedi um ifood senta pra estudar o telefone toca e lembra que esqueceu que era aniversário da amiga que mora longe se ajeita pra fazer uma chamada com as amigas putamerda que saudade de um barzinho manda mensagem pro boy já passou das 23h trocam meia dúzia de mensagem

23h37 – deita na cama e organiza mentalmente o que precisa fazer no dia seguinte. Liga o despertador prometendo que vai levantar quando ele tocar.

Ufa!

Tem dia que é exatamente assim. Ainda inclui aí os freelas, os grupos de amigo pra dar atenção, a família… O dia passa e eu nem percebi, mesmo tendo feito um zilhão de coisas.

Sabe o que é mais louco? Toda mulher que eu converso tem a mesma sensação. Se tiver filhes na história, a sensação é ainda mais avassaladora e acompanhada de culpa. Culpa por não ter sido a melhor profissional, culpa por achar que a casa não tá bem limpa ou que podia ter se dedicado melhor na função de mãe.

No meio desse turbilhão de coisas, já me peguei pensando: onde é que eu, mulher, entro nessa história?

Porque nesse papo todo teve espaço pra: profissional, filha, amiga, dona de casa, mãe, tudo, menos pra gente.

É bem louco pensar que, por mais que eu ame tudinho que eu esteja fazendo, meus dias são preenchidos por essas atividades e pouco espaço pra mim. E mais uma vez, essa sensação é compartilhada por toda mulher que eu já falei sobre o assunto.

Minha sogra comentou que mesmo após a aposentadoria ela segue mantendo uma rotina cheia. Vejo pela minha mãe que a história se repete: uma mulher com mais de 60 anos com a rotina mega cheia e com pouco espaço pra ela. Sempre no papel de mãe, filha, esposa, dona de casa…

Em algum momento das nossas vidas, nós, mulheres, admitimos diversos papeis e vamos executando todos eles ao mesmo tempo. Com dias mais cheios de atividade do que horas. Com a sensação de estar sempre devendo algo para alguém. Nem que seja devendo algo para nós mesmas.

Na verdade, não sei se admitimos. A vida acontece. E aí o que frequentemente rola é que mulheres em relacionamentos heterossexuais são sobrecarregadas com todas as outras atividades da casa. E nem vem com o papo de nem todo homem porque os dados mostram:

 Mulheres dedicam mais que o dobro de horas semanais em cuidados com a casa (IBGE – 2018). Mais uma vez, se tem filhe em casa, a jornada aumenta: 28% das mães ficam totalmente responsáveis pelo banho dos filhos e pela alimentação. (claro que esses dados são referentes a casais que compartilham a casa).

Todo esse tempo dedicado à casa e família fica na nossa conta.

E a carreira?

Também entra aí.

No pacote de: dedicação total ao trabalho, constante atualização, atenção às novidades do mercado, aprender novas ferramentas e idiomas…

E corpo?

Tem que malhar, estar arrumada, maquiada, bonitinha né? Tá na hora do botox.

Tempo de lazer, leitura, esportes, hobbies….

Caramba, o checklist para ser mulher é longo!

E por que diabos eu parei no final do meu dia para falar disso?

Porque a gente precisa sim pensar em todos nossos papeis e, especialmente, se estamos a fim de desempenhá-los. E também aceitar que nem todo dia a gente vai ser 100% em tudo. (acho que quase nunca né? rs)

E tatu do bem.

Haja processo de autoconhecimento, análise, observação para entender tudo isso e pensar se pra você isso funciona. Sabe o que me ajuda?

Falar. Seja aqui, falando pelos dedos, ou falar mesmo. Conversar com outras mulheres. Conhecer outras experiências. Especialmente porque esse texto foi escrito por uma mulher, branca, cis, hetero, com nível superior. Sei que tenho vários privilégios.

E é na base do conhecer o outro que dá pra pensar, será que a gente precisa mesmo encarar essa jornada toda? Ou será que dá pra gente compartilhar mais e se cobrar menos?

Bora naturalizar que nem sempre o planejamento do dia vai ser bom, nem sempre vai render horrores, que às vezes vai ficar uma louça na pia. E tatu do bem.

Tatu do bem querer descansar também, viu? Se você se sentir à vontade, me conta aí o que você faz para diminuir o peso da nossa jornada

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